Do figo emana o gosto da noite. Sua madurez negra, saturada de vida, do peso grávido de seu próprio fim. O dia virá para a fruta fêmea, a indolente que se deixa tomar, que se entrega, irreversível. Transborda de uma vida que nem é sua, que lhe transpassa, lhe toma inteiro o corpo.
A espera que nem se sabe espera pra culminânia, desesperada. Sua pele finíssima, sobre a carne madura, se rompe. Trópicos partidos na imensidão das doçuras. O desabamento. Qual lágrima trêmula de um olho rosado, densa, a delicada felicidade, escorre. Lábios, queixo, mãos. A dulcíssima embriaguez. Nossos corpos banhados pela água tão fresca da vida, da força da vida.
Nós não vimos, nós não, não sentimos, tão leves, indiferentes, os intervalos da vida e de seu tempo. Dançávamos e tínhamos a boca cheia de alegrias inteiras, certezas que nem mastigávamos, e falávamos afoitos, palavras, palavras, palavras, palavras. Devorávamos. Era saliva ácida e a polpa a se liquefazer. Engolíamos pedaçostodos, tinhámos as bocas meladas, o cheiro dos susurros, das gargalhadas. O cheiro do figo. O cheiro doido da alegria. A festa.
Há uma forma certa, quase segura de se comer um figo? Comemos a matéria da vida.
Amanheceram as cascas roxas, sudários que vestiram o róseo, trasnlúcido crepúsculo, sobre a mesa dividida.
A gota rosa manchou mapas antiquíssimos, adulterou línguas mais que mortas, extintas. O jardim do paraíso para sempre interdito. Na caixa, já não restariam folhas suficientes para vestir nossa nudez, tão súbita, tão dilacerante. Devastadora. Gritamos pela milésima vez. O que nos consolava é que por estar assim, um grito confundido entre tantos outros escândalos, nossa ignorância nos poupou a fatalidade. Tentava digerir, pensava, calada, remoía. É só mais um grito, foi só um figo... devoraríamos novamente os figos do mundo, os pecados que deus não julga.
Vou te contar, eu venho do inferno dos figos, do verão sem trégua, das polpas luxuriantes, do moramaço quente, parado. O sabor da felicidade, do desespero dos figos. Seu sumo corre em mim. São frases encarnadas, suculentas que escorrem através do silêncio, essa faca sempre amolada. Sou esse silêncio. Essa vida desumana, vegetal, crua. Os figos podres caídos no chão. Ah! Sou tão covarde para as pequenas catástofres.
As palavras me doem como grandes estios numa terra árida, da qual depende a vida. Estou viva, e muita vezes essa vida depende das palavras que tomo pra mim.Há figos que não se deixam partir. A vida é enorme, toda entremeada de caos, tédio e encanto. Não consigo partí-la para ver se ainda está muito verde, se já está estragada.
Só se pode saber um figo com a própria vida, não há intermédio.
Vou te contar, eu venho do inferno dos figos, do verão sem trégua, das polpas luxuriantes, do moramaço quente, parado. O sabor da felicidade, do desespero dos figos. Seu sumo corre em mim. São frases encarnadas, suculentas que escorrem através do silêncio, essa faca sempre amolada. Sou esse silêncio. Essa vida desumana, vegetal, crua. Os figos podres caídos no chão. Ah! Sou tão covarde para as pequenas catástofres.
As palavras me doem como grandes estios numa terra árida, da qual depende a vida. Estou viva, e muita vezes essa vida depende das palavras que tomo pra mim.Há figos que não se deixam partir. A vida é enorme, toda entremeada de caos, tédio e encanto. Não consigo partí-la para ver se ainda está muito verde, se já está estragada.
Só se pode saber um figo com a própria vida, não há intermédio.
Os figos, esses paraísos efêmeros, esses perigos divinos em púrpuras e rosas de mulher, só saberíamos deles, só os provaríamos com nossa própria carne, em nossa língua própria. As meninas tão inocentes, essas papilas, leito a abraçar a carne dos figos, o gosto dos figos, esse regozijo, essa alegria infernal, ao alcance das mãos.
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