Escher: Three worlds

Escher: Three worlds

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Felino anônimo

No momento feito de tempo e vontade tenho a mão um conta-gotas.
Irresoluta, retiro com parcimônia poucos nomes úmidos de um mar de possibilidades a fim de arrefecer a secura árida e indolente do que não se deixa nomear.
Mas detenho-me, inútil.
Nomes domesticam, tiram da coisa sua ameaça – olhos faiscantes a espreitar.
Conhecidos olhos, olhos antiqüíssimos, que ariscos, furtam-se entre memórias, sonhos, sentimentos, viva carne.
De soslaio mostram-se na cotidiana cena, que, tocada pela tua intensidade, despem-se da naturalidade corriqueira e se revelam em sua nudez de absoluto e mistério.
Deixo-te ir mudo felino... reverso sem anverso, conhecedor do inescrutável norte.
A mordaça das palavras a ti não tocará. Teu dorso de fera, espelho felino, tem o brilho das noites austrais, proibidas.
Viva sem nome. E retorne inevitavelmente, inesperadamente. Retorne com o frio medular. Retorne impossível, desejante, sôfrego, ofegante... Retorne então com tua segunda cara de incerto futuro.
Retorne quando eu conjecturar a metáfora exata e então, ria-te de mim, pois ela não te aprisiona.
Esteja presente quando o silêncio se impuser. Quando nome algum falar. E viva manso nessa galeria de tempo, abstrata matéria. Sei que voltarás a teus labirintos crepusculares até o dia que retornarás irrevogável.

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