Escher: Three worlds

Escher: Three worlds

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ela

seu
corpo tem formato
de vertigem

(e é
um pacto
com o diabo)

Sua alma
é chão de serpentes
cegas e famintas,

(onde danço
e caço)

Astier Basílio

Sobre os figos

Do figo emana o gosto da noite. Sua madurez negra, saturada de vida, do peso grávido de seu próprio fim. O dia virá para a fruta fêmea, a indolente que se deixa tomar, que se entrega, irreversível. Transborda de uma vida que nem é sua, que lhe transpassa, lhe toma inteiro o corpo.

A espera que nem se sabe espera pra culminânia, desesperada. Sua pele finíssima, sobre a carne madura, se rompe. Trópicos partidos na imensidão das doçuras. O desabamento. Qual lágrima trêmula de um olho rosado, densa, a delicada felicidade, escorre. Lábios, queixo, mãos. A dulcíssima embriaguez. Nossos corpos banhados pela água tão fresca da vida, da força da vida.

Nós não vimos, nós não, não sentimos, tão leves, indiferentes, os intervalos da vida e de seu tempo. Dançávamos e tínhamos a boca cheia de alegrias inteiras, certezas que nem mastigávamos, e falávamos afoitos, palavras, palavras, palavras, palavras. Devorávamos. Era saliva ácida e a polpa a se liquefazer. Engolíamos pedaçostodos, tinhámos as bocas meladas, o cheiro dos susurros, das gargalhadas. O cheiro do figo. O cheiro doido da alegria. A festa.

Há uma forma certa, quase segura de se comer um figo? Comemos a matéria da vida.

Amanheceram as cascas roxas, sudários que vestiram o róseo, trasnlúcido crepúsculo, sobre a mesa dividida.

A gota rosa manchou mapas antiquíssimos, adulterou línguas mais que mortas, extintas. O jardim do paraíso para sempre interdito. Na caixa, já não restariam folhas suficientes para vestir nossa nudez, tão súbita, tão dilacerante. Devastadora. Gritamos pela milésima vez. O que nos consolava é que por estar assim, um grito confundido entre tantos outros escândalos, nossa ignorância nos poupou a fatalidade. Tentava digerir, pensava, calada, remoía. É só mais um grito, foi só um figo... devoraríamos novamente os figos do mundo, os pecados que deus não julga.

Vou te contar, eu venho do inferno dos figos, do verão sem trégua, das polpas luxuriantes, do moramaço quente, parado. O sabor da felicidade, do desespero dos figos. Seu sumo corre em mim. São frases encarnadas, suculentas que escorrem através do silêncio, essa faca sempre amolada. Sou esse silêncio. Essa vida desumana, vegetal, crua. Os figos podres caídos no chão.  Ah! Sou tão covarde para as pequenas catástofres.

As palavras me doem como grandes estios numa terra árida, da qual depende a vida. Estou viva, e muita vezes essa vida depende das palavras que tomo pra mim.Há figos que não se deixam partir. A vida é enorme, toda entremeada de caos, tédio e encanto. Não consigo partí-la para ver se ainda está muito verde, se já está estragada.
Só se pode saber um figo com a própria vida, não há intermédio. 

Os figos, esses paraísos efêmeros, esses perigos divinos em púrpuras e rosas de mulher, só saberíamos deles, só os provaríamos com nossa própria carne, em nossa língua própria. As meninas tão inocentes, essas papilas, leito a abraçar a carne dos figos, o gosto dos figos, esse regozijo, essa alegria infernal, ao alcance das mãos. 

Inventário d´água

Depois de tudo, amor
é o que resta
as ilusões perderam-se
em espelhos d´água
há a calma
profunda
tranquila
dos grandes rios tardios
que passam
sem pressa
Como se deus dormisse.

Poema sujo de terra

Palavra  palavra palavrapalavrapalavrapalavra
até a pá lavrar
despalavra
terreno baldio
pedregulhos
são só sons
ruídos assemânticos de passarinho
letras verdes brotam
versos arejam a terra.

Felino anônimo

No momento feito de tempo e vontade tenho a mão um conta-gotas.
Irresoluta, retiro com parcimônia poucos nomes úmidos de um mar de possibilidades a fim de arrefecer a secura árida e indolente do que não se deixa nomear.
Mas detenho-me, inútil.
Nomes domesticam, tiram da coisa sua ameaça – olhos faiscantes a espreitar.
Conhecidos olhos, olhos antiqüíssimos, que ariscos, furtam-se entre memórias, sonhos, sentimentos, viva carne.
De soslaio mostram-se na cotidiana cena, que, tocada pela tua intensidade, despem-se da naturalidade corriqueira e se revelam em sua nudez de absoluto e mistério.
Deixo-te ir mudo felino... reverso sem anverso, conhecedor do inescrutável norte.
A mordaça das palavras a ti não tocará. Teu dorso de fera, espelho felino, tem o brilho das noites austrais, proibidas.
Viva sem nome. E retorne inevitavelmente, inesperadamente. Retorne com o frio medular. Retorne impossível, desejante, sôfrego, ofegante... Retorne então com tua segunda cara de incerto futuro.
Retorne quando eu conjecturar a metáfora exata e então, ria-te de mim, pois ela não te aprisiona.
Esteja presente quando o silêncio se impuser. Quando nome algum falar. E viva manso nessa galeria de tempo, abstrata matéria. Sei que voltarás a teus labirintos crepusculares até o dia que retornarás irrevogável.

Arremesso

No térreo do tédio.
Uma borboleta se lança no abismo.

quinta-feira, 19 de maio de 2011